Eles
Eu estava só, à beira de uma estrada, esperando. Era uma estrada sem pavimentação, talvez próximo ao mar, e soprava um vento frio. Era noite e estava muito escuro. O vento, soprando da minha esquerda, vinha em lufadas, cheio de uma bruma negra, estranha.
O tempo passa e eu começo a perceber que talvez a espera já esteja durando demais. A noite fria e o lugar desolado começam a me inquietar.
Logo me dou conta de que aquelas lufadas de neblina escura são como pequenos lençóis de fantasmas. Passam individualizados, como se tivessem vida; parecem diáfanos seres formados de escuridão. Num súbito acesso de medo, uma religiosidade ancestral me comove e desejo em meu íntimo que vão em paz.
Minha inquietação aumenta e decido que é melhor sair dali.
Começo a caminhar na direção do vento, mas noto que sigo o mesmo caminho daqueles seres e imagino mesmo ver ao longe uma multidão deles se formando na escuridão. É de lá que vem um cachorro também de cor escura, que passa por mim no momento em que tomo a decisão de voltar por onde vim. Se eu retornar pelo caminho, à direita encontrarei uma rua habitada e, mais adiante gente, luzes, movimento e conforto. Não estarei mais sozinho.
Volto-me e vejo que o cão havia parado e me esperado, me seguindo pelo caminho da volta. Isso me incomoda, pois aquele cão me vigia. Ao entrar na rua de casas, procuro ver gente, alguém que possa me dar algum tipo de apoio, mas tudo está deserto, embora eu possa ver a cabeça de uma menina de costas em uma das casas.
O cachorro agora morde minhas mãos, sem força, como os cachorros de casa fazem. Parece me dizer que eu estou sob sua guarda e isso me deixa ainda mais apreensivo. Não vejo como me livrar dele, penso em gritar por alguém, mas tenho medo. Sei que mais adiante estão as pessoas e a segurança, mas antes de chegar lá eu acordo no meio da noite e vejo que andei tendo um sono perturbado.
Depois de me certificar de que o mundo estava em ordem, voltei a dormir.