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Animê e Mangá


2005-01-25

O menino

Era uma foto antiga, em branco e preto, mas naquela foto de criança já estavam presentes todos os traços daquilo que eu chamo de "eu".

O corpo franzino, o jeito frágil, o semblante triste. E, principalmente, o olhar perdido.

Aquele olhar distante, que não enxerga o homem que fotografa, as pessoas ao seu redor.

Um olhar perdido em lonjuras inalcançáveis, tentando ver talvez o inatingível: o âmago daquilo que eu chamo "eu".

Mais um delírio inútil postado às 11:38


Só mais uma música

"Enquanto o amor for pecado e o trabalho um fardo
Pesado passado presente mal dado
As flores feridas se curam no orvalho
Mas os homens sedentos não encontram regato
Que banhe seu corpo e lave sua alma
O desejo é forte mas não salva"


Trecho de Um sinal de amor e de perigo, de Patinha e Kapenga (Banda Bendegó)

Mais um delírio inútil postado às 09:28


2005-01-21

"O dito pelo não tido"

Eu vou tirar do dicionário
A palavra você

Vou trocá-la em miúdos
Mudar meu vocabulário
e no seu lugar
vou colocar outro absurdo

Eu vou tirar suas impressões digitais
da minha pele

Tirar seu cheiro
dos meus lençóis

O seu rosto do meu gosto

Eu vou tirar você de letra
nem que tenha que inventar
outra gramática

Eu vou tirar você de mim
Assim que descobrir
com quantos "nãos" se faz um sim

Eu vou tirar o sentimento
do meu pensamento
sua imagem e semelhança

Vou parar o movimento
a qualquer momento

Procurar outra lembrança

Eu vou tirar, vou limar de vez sua voz
dos meus ouvidos

Eu vou tirar você e eu de nós
o dito pelo não tido

Eu vou tirar você de letra
nem que tenha que inventar
outra gramática

Eu vou tirar você de mim

Assim que descobrir
com quantos "nãos" se faz um sim

      - Vou tirar você do dicionário (Itamar Assumpção e Alice Ruiz)


(Muito show essa letra...)

Mais um delírio inútil postado às 14:50


2005-01-19

O Homem duplicado*

Ele nem lembrava mais há quanto tempo usava aquele bigode. Nem sequer sabia por que o deixara crescer. Talvez para fazer o visual machão da época. Talvez para esconder alguma cicatriz...

Como era seu rosto sem bigode? Sempre lembrava dele assim, por trás daqueles pêlos escuros. Não tinha muitas fotos. E em todas tinha bigodes.

Os amigos brincavam com ele. Falavam que bigode era coisa de gay; no máximo, coisa de metrossexual. Mas ele não ligava. Por que não arriscava tirar o bigode? Ficaria mais jovem, possivelmente. Ficaria mais clean.

No fundo ele também se perguntava por que não arriscava. Bigode cresce bem rápido. Se não gostasse do que visse, era só deixar crescer de novo.

Um dia a curiosidade foi maior do que o medo. Não se preocupou com a cicatriz, com a imagem, com o que iriam pensar. Tirou o bigode. Queria ver quem estava ali detrás. Queria ver quem era esse outro que se escondia por trás daquele antiquado ornamento facial.

E veio o choque. Por trás do bigode estava ele! Mas um outro ele. O ele que ele queria esquecer.

Não soube suportar o choque de se ver no espelho, o duplo de outra pessoa que era, mas ao mesmo tempo não era ele.

Dois dias depois cometeu suicídio.

Isso foi o que todos pensaram. No fim, só ele mesmo sabia que a verdade era outra: ele matara o intruso.

*O Homem duplicado também é o título de um romance de Saramago

Mais um delírio inútil postado às 20:32


2005-01-17

Essa coisa

Ela sempre chega assim: de mansinho, silenciosa e sem dizer por quê.

Umas vezes parece que chega de fora, mas me entra pelos olhos, narinas e ouvidos e se instala tão bem como se fosse a dona da casa.

Outras vezes, parece que ela vem de dentro, como se já morasse aqui, e vem subindo de algum lugar e deixa um vazio no estômago e vai formando um nó na garganta e é preciso que eu faça um esforço para que ela não me saia pelos olhos.

Mais um delírio inútil postado às 10:05


2005-01-15

Bem me quer

Mal me quer
Bem me quer
Mal me quer
Bem me quer
Mal me quer
Bem me quer
Mal me quer
Bem me quer
Mal me quer
Bem me quer
Mal me quer...

afinal, quantas folhas tem essa coisa?

Mais um delírio inútil postado às 19:53


2005-01-08

Sombra preta

O ciúme entrou como um miasma pelas frestas da porta e invadiu tua sala, teu quarto, teus pulmões.

Seu odor acre ardeu dentro de ti e trouxe um gosto ruim à tua boca.

Mas o ciúme não te fez injetados os olhos, não afiou as tuas unhas nem reclamou o sangue que as traições cobram como tributo.

Pois o ciúme não se fez em ira.

O vinho não virou vinagre mas o ciúme, como um santo ao contrário, o transformou em água e foi como se um ar novo invadisse a casa e arejasse a tua alma e te deixasse em paz.

Mais um delírio inútil postado às 14:37


2005-01-03

Ficções II (celular)

Ela atende.

Ele: Diga aí... *amistoso* Beleza?

Ela: Beleza...

Ele: Recebeu minha mensagem?

Ela: Recebi.

Ele: E aí?

Ela: *fria* E aí o quê?

Ele: Como assim "e aí o quê"?

Ela: Eu já li.

Ele: Eu sei... mas... esperava outra coisa...

Ela: *impaciente* Eu li. Não já disse?

Ele: Calma...

Ela: ...

Ele: Nem parece você...

Ela: ...

Ele: Tá bom... Se quiser conversar me liga depois.

Ela: Tá.

Ele desliga.

Mais um delírio inútil postado às 21:11


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